Festas de Lisboa
Festas de Lisboa
É Lisboa que nos junta!
Lisboa vive os Santos
Tradição que nos une.
Cidade que celebra.
Casamentos de Santo António
Quando o Amor e a Tradição se encontram
Nesta singular tradição, diversos casais lisboetas celebram o matrimónio, em conjunto, no dia 12 de junho, partilhando uma cerimónia que une a cidade em torno do amor e da cultura popular.
As origens
Esta iniciativa remonta a 1958 e teve, desde o início, um propósito marcadamente social.
Nesse ano, Santo António de Lisboa assumiu simbolicamente o papel de “casamenteiro” da cidade, dando início a uma das mais marcantes tradições populares lisboetas.
Com o apoio do jornal Diário Popular, nasceu a iniciativa que, até 1972, ficou conhecida como “Noivas de Santo António”. Criado com um forte propósito social, o evento tinha como objetivo permitir que casais com poucos recursos financeiros pudessem concretizar o sonho do casamento, assegurando o apoio necessário à realização da cerimónia.
Logo na primeira edição, 36 casais concretizaram o sonho graças ao apoio da comunidade: o evento assegurava todas as despesas associadas ao casamento — do vestido de noiva ao copo-d’água — através de patrocínios. O sucesso foi imediato, e a iniciativa passou a realizar-se anualmente, conquistando um lugar central nas Festas de Lisboa até 1974, ano em que foi interrompida após dezasseis edições consecutivas, ao longo das quais 832 casais de noivos disseram o “sim”.
Três décadas depois, em 1997, a Câmara Municipal de Lisboa retomou os Casamentos de Santo António, devolvendo à cidade este acontecimento único para novas gerações de lisboetas.
A primeira noiva de Santo António
No dia 13 de junho de 1958, o Diário Popular faz capa com a morte do célebre ator Vasco Santana, mas a grande manchete é dedicada a “Uma Linda Festa Popular na Manhã do Dia de Santo António: O Casamento das Noivas”. Em destaque no jornal, na foto da primeira edição dos Casamentos de Santo António, está o casal de noivos Alda Santos e Alexandre Gasparinho, a celebrarem uma história de amor que duraria a vida inteira.
“Casei a uma sexta-feira 13, mas o Santo António deu-me sorte no casamento. Estivemos juntos quase 40 anos e houve sempre amor. Até à morte”, recorda Alda, que perdeu o marido em 1997, na sequência de doença prolongada.
Em 1958, eram 36 os casais de noivos, tantos quantos os anos que, segundo consta, Santo António terá vivido. Hoje contam-se pelos dedos das mãos os noivos que, nesta altura do ano, recordam e partilham essa experiência única. Alda tem 87 anos, mas a memória do amor não lhe falha, “Foi amor à primeira vista no bailarico”.
“Conhecemo-nos no baile de máscaras, na Rua do Possolo, em Lisboa, um ano antes de casarmos”, recorda Alda ao pormenor. Alda, disfarçada de egípcia, não passou despercebida ao “rapaz mais bonitão e atlético” do baile. Estava sentadinha no seu canto quando ele a convidou para dançar. E a dança durou a noite inteira. A vida inteira. “Nunca mais nos largámos”. Nessa noite, que nem cinderela, teve que sair a correr para casa, de onde tinha saído às escondidas da mãe, para a festa. Ele seguiu-a. E poucos meses depois, tinha a certeza de que era com ela que queria casar. “Mas casar como? Com que dinheiro?”, perguntava Alda, aos 19 anos. A resposta chegaria num anúncio do Diário Popular: estavam abertas as candidaturas para um casamento de sonho. Alda e Alexandre, alfacinhas de gema e de coração, reuniam os critérios, inscreveram-se e casaram a 13 de junho. “As ruas de Lisboa estavam inundadas de pessoas, o ambiente era de festa, com aplausos. E o casamento foi um luxo. Um sonho”.
E Alda seguiu-o. Alexandre cantava em casas de fado e Alda acompanhava-o. “E os violas perguntavam: Alda, cantas tão bem, não queres cantar connosco? Mas ele não permitia”. Celeste, a filha, explica com um sorriso: “sempre foram muito ciumentos um com o outro. Mas eram um casal apaixonado, resiliente, daqueles que não desistem aos primeiros obstáculos”.
Alexandre era caçador, Alda tirou a licença de porte de arma e foi atrás. Unidos no mesmo caminho: “adorávamos praia. Íamos de manhã para São Pedro do Estoril e chegávamos a dormir lá, num toldo, de um dia para o outro”.
“A minha mãe sempre foi uma mulher à frente do seu tempo: foi das primeiras a usar biquíni, calças e vestido, feito pela própria”, conta a filha, Celeste Gasparinho. “Devo ter vestido todas as noivas das redondezas dos anos 70. Também fui eu que costurei o vestido da minha filha”. A família da primeira noiva de Santo António vai longa: dois netos. E os planos não abrandam com o espreitar dos 90: “gosto muito de viajar, ainda quero ir à Índia e à Rússia”. Afinal de contas, Santo António casamenteiro também é milagreiro.
A tradição hoje
Uma celebração que continua a unir a cidade.
Quando os Casamentos de Santo António regressaram em 1997, passaram a incluir a componente civil, deixando de ser apenas religiosos. Atualmente, mantêm-se como uma referência incontornável do património cultural lisboeta, contribuindo ativamente para a afirmação da identidade e do espírito comunitário da cidade. Hoje integram ambas as modalidades, com os casamentos civis a realizarem-se nos Paços do Concelho e os casamentos religiosos na Sé de Lisboa.
Sabia que
Desde 1958, os Casamentos de Santo António já juntaram cerca de 1247 casais?