COVID-19 Medidas e Informações

As equipas de vacinação ao domicílio, constituídas por enfermeiros contratados pela Câmara de Lisboa, levam a vacina a doentes acamados ou que não podem sair de casa.

Mas mais do que administrar vacinas, os profissionais escutam histórias de vida, partilham experiências, apoiam emocionalmente quem se encontra mais frágil e vulnerável.

Mais de 2000 pessoas inoculadas em casa

Numa altura em que o processo de vacinação avança a todo o gás na capital, é importante garantir que ninguém fica para trás, mesmo os que não conseguem deslocar-se a um dos vários centros de vacinação espalhados pela cidade. 

Considerando que 19% dos idosos em Portugal têm limitações na realização de atividades, devido a problemas de saúde, e que a população idosa da Área Metropolitana de Lisboa compreende cerca de 22,1% da população total, é importante garantir que a vacina chegue a todos, indiscriminadamente. 

Desde meados de abril que a Câmara Municipal de Lisboa contratou equipas de enfermeiros para fazerem parte de um programa de vacinação ao domicílio. 

Coordenada pela Protecção Civil de Lisboa, em conjunto com os Agrupamentos de Centros de Saúde de Lisboa (ACES), que identificam os utentes com dificuldades de movimentação, esta iniciativa já vacinou mais de duas mil pessoas na capital e irá continuar enquanto houver pessoas a precisarem de ajuda. 

Processo Coordenado pela Protecção Civil de Lisboa

No que toca a ajudar pessoas, Márcio Teixeira já fez de tudo um pouco.
Esteve no Gabinete de Apoio ao Comando do RSB, desempenhou funções de socorro no INEM, é operacional da Protecção Civil de Lisboa há 21 anos e tem sido uma das peças fundamentais na concretização desta operação.

Sobre esta iniciativa, Márcio destaca o lado humano da operação: “Este programa não se foca apenas na vacinação, também é uma maneira de identificar casos de fragilidade e solidão. Para muitas pessoas, aqueles 30 minutos, em que ficamos à conversa para ver se a vacina gera reação adversa, são extremamente importantes porque têm alguém com quem falar.”

Os ponteiros do relógio marcam as oito horas quando Márcio chega ao Serviço Municipal de Lisboa, em Monsanto. Chegou cedo. 

Bebe o seu café matinal, fala com alguns colegas e faz a última revisão ao equipamento. Tem que bater tudo certo para a operação correr bem. 

Confere a lista de moradas, discute rotas com os bombeiros voluntários e prepara-se para o briefing com a equipa de enfermeiros.

São 8h30, está na hora de começar. 

Este programa não se foca apenas na vacinação, também é uma maneira de identificar casos de fragilidade e solidão. 

Márcio Teixeira

As equipas de enfermeiros contratados pela CML dividem-se em grupos de seis e são encabeçados por um médico e um enfermeiro coordenador dos ACES.

São eles os responsáveis pela preparação, gestão da lista de utentes, entrega das vacinas e apoio técnico de urgência aos enfermeiros que vão aos domicílios vacinar.

Para cobrir o maior número de moradas possível por dia, fica um enfermeiro por casa, com uma mochila dada pelo SMPC onde tem todo o material necessário para fazer o desenvolvimento do seu trabalho. 

No dia anterior todos os utentes foram contactados pela sua Unidade de Saúde e responderam a um pequeno questionário que pretendeu apurar potenciais constrangimentos à vacinação e, obviamente, disponibilidade para receberem a vacina.

Após uma rápida verificação e distribuição do material de proteção e vacinas, cada equipa separa-se para iniciar a operação no terreno. 

É aqui que nos despedimos das restantes equipas para acompanharmos a enfermeira Maria Cristina da Silva Pereira. 

 

É um trabalho super gratificante. Para nós o bem dos nossos utentes é a essência do nosso trabalho. Estamos gratos por poder ajudar. 

Cristina Pereira

Todas as equipas são lideradas por um enfermeiro e um médico mais experiente

Enfermeira há 39 anos, Cristina trabalha no Hospital Distrital de Santarém. É natural de Moçambique e veio para Portugal aos 18 anos.

Recentemente voltou ao continente africano para formar as primeiras enfermeiras especialistas em enfermagem obstétrica e materna em Angola.
Mas para Cristina, enfermagem não é apenas cuidar do estado de saúde do utente, mas também todas as outras vertentes.

Na sua opinião, a operação de vacinação “tem corrido muitíssimo bem”, apesar de ter sido mais difícil no início: “Era novo para todos, mas a cada dia que passa tem-se visto bastantes melhoras.” De resto, sublinha, “a proteção civil tem sido incansável, os ACES também. Temos feito o melhor que podemos e sabemos". 

Os enfermeiros não se limitam a vacinar as pessoas, também ouvem as suas histórias de vida.

Cristina chega ao seu primeiro domicílio. Toca à campainha, identifica-se e é recebida por Fernanda Ferreira.
Fernanda explica-nos que o senhor Jorge está a sofrer de uma crise depressiva e que não se conseguia deslocar para receber a vacina. Falou com o centro de saúde, Jorge foi identificado e o seu nome acrescentado à lista da Protecção Civil para o programa de vacinação domiciliária. Tudo no espaço de uma semana. 

Enquanto a enfermeira Cristina procede à vacinação do utente, ficamos à conversa com a sua esposa, que nos conta a história de como se conheceram:“ Ele também morava na rua, mas eu nunca o tinha visto. Um dia eu estava no café e ele despertou-me a atenção porque estava a relatar o que tinha almoçado de véspera. Passaram uns dias e começamos a cruzar-nos mais vezes. Sei que ele andou à minha procura, a ver em que andar é que eu morava. Quando soube qual era o prédio, tocou para todas as campainhas à minha procura”, recorda.

Fernanda também nos conta que o esposo era comercial e que sempre foi uma pessoa ativa, mas que devido a um problema de saúde entrou em depressão.
Na vacinação ao domicílio não é só a vacina que ajuda as pessoas. Ouvir as suas histórias ajuda-as a esquecerem-se dos problemas do dia a dia. 

Passaram-se 30 minutos e o senhor Jorge não teve uma reação adversa. É altura de seguir para a próxima casa.

Foi tudo muito rápido. Liguei para o Centro de Saúde e disse que o meu marido não conseguia descolar-se para ser vacinado. Eles disseram que iam marcar um dia para ele ser vacinado em casa e foi o que aconteceu, tudo no espaço de uma semana. 

Fernanda Ferreira

Cristina explica-nos como é que toda a intervenção é efetuada.

Perto da hora de almoço chegamos à próxima casa. 
Elisa Maria Caetano tem 83 anos e recebe-nos com um sorriso.

Sem qualquer mobilidade devido a problemas de saúde, vive sozinha. Durante o dia a sua companhia são os seus dois patudos, o Donar e a Aide, que nunca saem de junto dela. 
Mas hoje, Elisa tem a oportunidade de falar com mais alguém: a enfermeira Cristina. 
Conta como viveu na Suíça, revela que o seu marido está no hospital por doença prolongada, e que a sua filha e a dona Encarnação a ajudam no que podem. 

Esta é a sua primeira dose e não é grande fã de agulhas. Mas a enfermeira Cristina conforta-a e aplica-lhe a vacina. Esta é a sua primeira dose e já tem data marcada para a segunda. 

Terminados os 30 minutos para ver a reação à vacina, Cristina despede-se da utente e segue viagem.

Organização, coordenação e prudência em toda a operação

Antes de seguirem para a próxima casa as equipas fazem uma pausa. Reúnem-se, abordam as inoculações realizadas durante a manhã, analisam se os procedimentos estão a ser desenvolvidos com correção, confirmam se possuem o material necessário para cumprirem o seu trabalho durante a parte da tarde.

É imperativo garantir que corre tudo dentro do planeado e sem grandes desvios no que foi planeado.

No final do dia, todas as equipas fazem um relatório sobre possíveis ocorrências e complicações que tenham tido e enviam à Protecção Civil de Lisboa. 

Uma operação com uma uma taxa de sucesso na ordem dos 90%

Desde os novos postos móveis, aos novos centros de vacinação, a Câmara Municipal de Lisboa tem feito todos os possíveis para vacinar o maior número de pessoas contra a Covid-19 e a vacinação ao domicílio veio colmatar a necessidade de não deixar ninguém para trás. 

Com uma taxa de sucesso na ordem dos 90%, faltam apenas vacinar cerca de 300 utentes assinalados pelos Centros de Saúde da Capital.

A vacinação ao domicílio não é apenas um processo para inocular quem não se consegue deslocar, é também uma forma de se assinalar situações de fragilidade e identificar situações de isolamento e de solidão.

Veja a reportagem em vídeo

Texto: João Vasconcelos 

Fotografia: Manuel Rodrigues Levita 

Vídeo: Nuno Loureiro

Edição de vídeo: Inês Marques