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Após vários anos em situação de sem-abrigo, Humberto recebeu uma casa para viver. Em março de 2021, integrou o projeto Housing First, que tem como primeiro objetivo retirar as pessoas da rua, dar-lhes uma casa, ajudá-las a recuperar a vida e a tornarem-se autónomas.

Nascido nos Açores, Humberto Castro vive no continente desde os 7 anos de idade. Constituiu família, tem três filhos, netos, mas por problemas de adição a álcool e drogas, a sua família não resistiu unida. No passado viveu em quartos, mas explica que nem sempre corria bem pois “os senhorios não gostavam que eu estivesse lá, não me deixavam utilizar as cozinhas…”. Já esteve também alojado em centros de acolhimento, mas não se sentia confortável num espaço com tantas pessoas. Precisava de um espaço seu.

“Ainda ocupei um prédio abandonado, em Lisboa, com dois rapazes, mas depois obrigaram-nos a sair”, conta. Foi nessa altura que se viu mesmo a viver na rua e por lá esteve mais de 4 anos. Até que a Comunidade Vida e Paz (CVP), numa das suas rondas diárias, conheceu Humberto. Foi acompanhado durante um ano e sinalizado como potencial residente de uma casa do projeto Housing First, e passados poucos meses recebeu uma casa só para si.

“Quando a equipa da CVP me disse que eu podia ter uma casa e que ia ser breve, eu não acreditei muito. Mas agora passados dois ou três meses, estou aqui, com uma casa só para mim”, afirma emocionado.  

Humberto sente-se feliz e mais sereno, pois devido ao seu frágil estado de saúde, já não suportava os dias de frio e chuva na rua. Conta que não conseguia levantar-se de manhã e passava a noite acordado por causa do barulho e até com medo. Era frequente pessoas aparecerem pela noite dentro, no espaço onde Humberto tentava descansar. “A minha sorte é que tinha vizinhos perto, que moravam nas casas e qualquer coisa que fosse preciso eles estavam ali. Já eramos amigos de há muitos anos. No futuro vou visitá-los com frequência, tenho a certeza. Vou fazer trabalho comunitário no Regueirão que é mesmo ali perto e não custa nada ir lá cumprimentá-los”, diz com entusiasmo. 

Este açoreano que já não visita a ilha há cerca 12 anos, tem um filho em Londres, outro no Algarve, uma filha em Odivelas e ainda “duas netinhas”. Falam ao telefone, mas não têm estado juntos por causa da pandemia. “Gostava que a minha filha e neta cá viessem, claro. Falo muitas vezes ao telefone com eles, porque gosto de saber como estão”. Humberto deseja receber a família em sua casa, assim que for possível, e assegurou que vai cozinhar as refeições. “Eu sei fazer comida. Andei muito tempo a trabalhar nas obras e cozinhava sempre para mim. Aprendi com a minha mãe”, explica sorrindo. E acrescenta que está com muita esperança que a sua vida mude, “só ter uma casa já muda tudo!”. 

 

Gostava que a minha filha e neta cá viessem, claro. Falo muitas vezes ao telefone com eles, porque gosto de saber como estão.

Da sinalização à entrega da casa

Ricardo Alvim, psicólogo do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamentos) conta-nos que demoraram cerca de 5 meses a conseguir arrendar uma casa para Humberto. “Infelizmente é muito complicado arrendar casas para este fim, principalmente no período de pandemia Covid-19. Ricardo é o responsável pelo acompanhamento de Humberto. Explica que a seleção dos casos que podem integrar esta resposta de Housing First, são pessoas que estão na rua há mais tempo, mais carenciadas e que têm mais necessidades de cuidados de saúde. A urgência é prioritária. “Queremos retirá-los o mais rápido possível da rua, mas têm de ser pessoas que estão, de certo modo, organizadas ou que têm capacidade para tal. A nossa função é, em primeiro lugar, atribuir-lhes uma casa e de seguida acompanha-los no que precisarem. Nós, enquanto técnicos, temos de estar disponíveis 24 horas por dia e 365 dias por ano. Os participantes têm sempre o número de telefone do técnico mais próximo e o número de urgência da nossa equipa”, esclarece.  

O que é o programa Housing First?

O projeto Housing First, surgiu nos Estados Unidos da América há mais de 20 anos. É uma resposta criada, para integrar as pessoas em situação de sem-abrigo em habitações, acompanhadas por técnicos que os ensinam a gerir uma casa, tendo em vista a sua integração social. Este programa começou em Lisboa em 2009, através da AEIPS - Associação para o Estudo e Integração Psicossocial; em 2013 prosseguiu com a CRESCER - Associação de Intervenção Comunitária e em 2016 a Câmara de Lisboa lançou um primeiro concurso com 80 casas. Em 2020 o número de casas aumenta, tendo a autarquia atualmente 340 casas contratualizadas com quatro IPSS, que operacionalizam a resposta a dar.

As quatro entidades responsáveis pelo projeto Housing First são a AEIPS - Associação para o Estudo e Integração Psicossocial; CRESCER - Associação de Intervenção Comunitária; GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos e VITAE – Associação de Solidariedade e Desenvolvimento Internacional

Os participantes deste projeto recebem uma casa, mas têm toda uma vida para organizar a seguir. Instituições como o GAT, neste caso, fazem esse caminho com eles. Há pessoas que têm necessidade de entrar num projeto de reabilitação ou de tratamento psicológico, ir a consultas regulares com um médico, inscrever-se no centro de emprego ou em algum tipo de formação profissional. “O projeto Housing First começa quase pelo fim. É cedida uma casa mobilada, assegurada alimentação, roupas, o que for preciso. Há que perceber se a pessoa pode trabalhar e integrá-la da melhor maneira possível na comunidade” conta Ricardo. Este é um projeto muito recente para o GAT. “Temos sempre o apoio das outras instituições, ao nível da documentação e de estudos, mas tem corrido muito bem. Pessoalmente faço investigação, temos sempre uma base teórica muito forte e por isso sentimo-nos bastante seguros, sabendo que este programa é realizado em Portugal já há muitos anos, mesmo numa pequena escala. Mas já é realizado na Europa, nos EUA e no Canadá há muitos anos numa escala maior e com sucesso”. 

As pessoas são integradas em habitações e acompanhadas por técnicos disponíveis 24 horas por dia.

Paulo Santos, coordenador da equipa de projeto do Plano Municipal para Pessoas em Situação de Sem-Abrigo 2019-2023 (EPPMPSSA), explica-nos que os técnicos das instituições são responsáveis pela reintegração da pessoa na casa, mas também no bairro onde vivem. 
Este projeto defende que as casas Housing First, devem estar distribuídas por vários territórios da cidade, em diferentes bairros, sendo “muito importante o estabelecimento de relação com as várias respostas sociais da comunidade.”
Um exemplo: “A partir do momento em que a pessoa está nesta casa, é recenseada na respetiva junta de freguesia e tem acesso a determinados apoios, que os fregueses, por estarem neste bairro podem usufruir. É este trabalho que é necessário fazer com o individuo e com os atores locais.”
O envolvimento da pessoa e a sua reintegração na sociedade, através de oportunidade de emprego ou formação, é encarado como a melhor forma de apoio. 

Paulo Santos conta que grande parte dos casos das pessoas que acedem a este programa vêm de situações crónicas de rua. “Temos casos de pessoas que, a partir do momento em que entraram na casa, demoraram bastante tempo a dormir pela primeira vez na cama ou a preparar a sua própria refeição. São pequenas vitórias que a própria pessoa e equipa técnica que os acompanha vão alcançar. Mas demora o seu tempo e implica muito investimento de ambas as partes”. 

Este projeto está implementado a nível mundial, com estudos científicos que demonstram o seu sucesso, e em Lisboa não foi diferente. Há uma taxa de manutenção das pessoas nas habitações de 90%, que está em linha com o que se passa noutras cidades europeias. “A taxa de sucesso é bastante elevada e a prova disso é que as pessoas se mantêm na casa e criam novos laços de vizinhança, que é o mais importante num primeiro passo na integração na sociedade”, explica Paulo Santos. 

Todos os participantes terão de contribuir com 30% do seu rendimento para o projeto. Se não tiverem nenhum rendimento não terão de contribuir com nada, mas um dos objetivos do programa é que as pessoas possam obter algum tipo de rendimento, o mais rápido possível. Se não estiverem aptos para trabalhar, terão um Rendimento Social de Inserção, ou algum tipo de pensão (invalidez por exemplo). No caso de Humberto, recebe uma pensão e vai ceder 30% desse valor. 

O grande propósito da Câmara Municipal de Lisboa, com o projeto Housing First, é promover a erradicação das situações crónicas de sem-abrigo na cidade e garantir condições de vida dignas, que evitem o retorno das pessoas à situação de sem-abrigo, onde estão expostas a inúmeros fatores de risco. O apoio técnico especializado promove a adesão das pessoas ao projeto, promovendo a autonomia e a inclusão na comunidade. 

GAT Housing First

O GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos, fundado em 2001, é uma estrutura de cooperação entre pessoas de diferentes comunidades e de diferentes organizações, afetadas pelo VIH e SIDA, infeções sexualmente transmissíveis, hepatites virais e tuberculose. A equipa focada no projeto Housing First é constituída por quatro pessoas. Dois psicólogos e duas assistentes sociais. População alvo: Ageing Users, comunidade LGBTI+, pessoas que vivem com VIH 50+, mulheres CIS e Trans.  

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Reportagem - "Uma Lisboa que não dorme"

Área dos Direitos Sociais - Pessoas em situação de sem-abrigo.

Conheça mais sobre o modelo Housing First aqui 

 

 

 

 

Texto: Mafalda Ferraz

Fotografia: Nuno Correia

Vídeo: Jorge Ramalho e Nuno Morais